segunda-feira, 4 de abril de 2016

#3 - Algo que escondi durante demasiado tempo

Na altura não existia grandes conhecimentos ou empatia por quem tivesse psoríase ou qualquer outra condição na pele. Eu não conhecia ninguém com uma pele igual à minha e isso tornou-me cada vez mais introvertida. Não enfrentei aqueles que me destabilizavam e me gozavam todos os dias. Não falei com ninguém acerca do que se passava na escola, deixei tudo acumular e só, após alguns anos, me apercebi que era isso que fazia com que a minha psoríase não melhorasse. Era o facto de estar a guardar todas as más memórias e todas as maldades, em vez de desabafar.

Todos os dias, sem exceção, o mesmo grupo de rapazes, no intervalo entre aulas, andavam atrás de mim a dizer “Sofia, és tão feia”; “pareces um extraterrestre”; “a tua mãe devia ter abortado”; entre outras coisas que ainda estão gravadas na minha mente.

Cresci sentindo uma vontade horrível de agradar para não ser rejeitada, muitas vezes me esquecendo que tinha uma voz e vontade própria. Hoje em dia, já não sou tanto assim. Deixei de ter vergonha de me impor e dar a minha opinião. Parei de me preocupar tanto com o que os outros vão pensar se estiver de mau humor. Descobri que também tenho direitos. Não nasci para ser escrava da minha pele e muito menos de pessoas ignorantes.

Apesar de ser uma mulher de bem com a vida, no geral, ainda existe aquela vozinha dentro da minha cabeça que me diz “és feia” sempre que alguém me elogia; que mexe comigo sempre que algo não corre bem e me faz pensar “não és suficientemente boa”. Essas vozes ainda se repercutem e, no passado, fizeram com que aceitasse menos do que merecia.


Nos tempos de escola, não procurei ajuda; nunca contei aos meus pais ou família, pois tinha vergonha. Achava que era tarde demais para revelar que o meu sorriso não era sincero, apenas um disfarce; apenas uma defesa que construí para não me magoar mais. Construí um muro tão alto que ainda, hoje em dia, é difícil alguém derrubá-lo.

Imagem retirada de Pinterest

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